Livro disponível online: O Português Afro-Brasileiro (Lucchesi, Baxter, Ribeiro)

O livro O Português Afro-Brasileiro (Orgs: Dante Lucchesi, Alan Baxter e Ilza Ribeiro), da Editora da Universidade Federal da Bahia, 2009, está disponível gratuitamente online no site do Scielo.

O capitulo “A negação sentencial”, de Rerisson Cavalcante, é de especial interesse para quem trabalha com ensino de português brasileiro para estrangeiros. Muitos alunos sentem alguma dificuldade com a nossa dupla negativa, como em frases como essa que o autor usa como exemplo:  “E ela costuma ir? Num gosta muito de ir im festa não…”. Os materiais didáticos de português como segunda língua exercitam a dupla negativa, mas é comum os alunos se indagarem sobre o porquê ou mesmo sobre a lógica dessas frases. Esse capítulo é uma bela fonte de respostas… Não é não? 🙂

Para ler, clique aqui: http://static.scielo.org/scielobooks/p5/pdf/lucchesi-9788523208752.pdf

(Agradeço à Professora Tania Pelegrini, da UFSCar, a indicação).

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No Jornal Hoje da Rede Globo

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Educação democrática para os pequenos

Se um dia eu tiver filhos, eu me mudo pra Osasco. É que fica lá uma escolinha incrível, vocês já conhecem o Grupo Oficina – Jardim de Infância? Eles estão numa chácara tombada, têm uma área verde imensa com galinha, ovelha, horta, casa na árvore e a cozinha da casa da chácara foi transformada em cozinha-sala de aula para as crianças. Vera Lúcia Midea, a idealizadora, foi coordenadora pedagógica em Ilha Solteira junto com a minha mãe, numa das escolas pioneiras na inovação da organização das atividades pedagógicas do Brasil. Seu marido, Nilson, é o professor de xadrez. Foi ele mesmo que criou o método (detalhe: todas as crianças têm entre 1 e 6 anos de idade!) e construiu um xadrez tamanho real, que elas adoram. A filha deles, Fabiana, é a diretora (ligada à antroposofia). E o filho, Rafael, veio mais recentemente somar esforços com sua experiência administrativa. Hoje foi a festa junina deles, e as crianças estavam aprendendo a vender a paçoca que elas mesmas fizeram. Nessa escola familiar, a sensação de comunidade é muito forte. O tema da festa foi “São João não quer acordar, acorda São João!”, que foi resultado de todo um processo de interação da prof. de Movimentos Corporais com as crianças. Nenhuma imposição de cima para baixo, bem como deve ser uma verdadeira educação democrática. Estou encantada com esses profissionais da educação cheios de amor e muita competência. Conheçam! É de emocionar. Ah, os pequenos têm também aula de Música e Eco-Atividades…
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Sobre como melhorar as condições dos professores no Brasil

“- O que pode efetivamente melhorar a condição de trabalho do professor?
– A sua promoção à condição de trabalhador comum. Na verdade, o professor, no Brasil, está abaixo disso. Se fosse um proletário, teria uma melhor condição de trabalho e de vida, pois trabalharia num só lugar e sua jornada seria de 44 horas semanais, e não de até 64 horas, como é permitido agora em SP. E enquanto a jornada de trabalho aumentou, o salário diminuiu. São coisas gritantes, que às vezes os próprios professores não percebem. Dentro da universidade se percebe, só que a universidade não se compromete o suficiente com as soluções da educação básica.”
Entrevista com meu pai, o Professor Celestino Alves da Silva Jr, na revista Unesp Ciência. Leiam!

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Dicionário de Paulistanês

Deixo aqui a indicação do Dicionário de Paulistanês, um site onde você pode encontrar muitos vocábulos usados na cidade e em grande parte de todo o estado de São Paulo. Além disso, o site mostra os dialetos da cidade por bairros e tem traduções para o inglês, a pronúncia correta das palavras, algumas manias dos paulistanos e a gastronomia regional.

Vale muito a pena, sobretudo para romper com a aquela velha ideia de que “paulista não tem sotaque”. Tem sim, tem usos próprios do português brasileiro também. E, sobretudo, tem uma cultura complexíssima, vinda da mistura de todas as regiões do país.

Acessem e divirtam-se no Dicionário de Paulistanês!

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Graciliano Ramos

Hoje encontrei um artigo de Zenir Campos Reis (professor de Literatura Brasileira, USP) em que as cartas pessoais de Graciliano Ramos são analisadas. Muitas apresentam interessantes relações com a prática literária do autor. Nesse trecho, Graciliano conta um pouco da sua busca pelo português brasileiro durante a escrita do romance S. Bernardo (1934):

“O S. Bernardo está pronto, mas foi escrito quase todo em Português, como você viu. Agora está sendo traduzido para brasileiro, um brasileiro encrencado, muito diferente desse que aparece nos livros da gente da cidade, um brasileiro de matuto, com uma quantidade enorme de expressões inéditas, belezas que eu mesmo nem suspeitava que existissem. Além do que eu conhecia, andei a procurar muitas locuções que vou passando para o papel. O velho Sebastião, Otávio, Chico e José Leite me servem de dicionários. O resultado é que a coisa tem períodos absolutamente incompreensíveis para a gente letrada do asfalto e dos cafés. Sendo publicada, servirá muito para a formação, ou antes para a fixação, da língua nacional. Quem sabe se daqui a trezentos anos eu não serei um clássico? Os idiotas que estudarem gramática lerão S. Bernardo, cochilando, e procurarão nos monólogos de seu Paulo Honório exemplos de boa linguagem”.

Fonte: Reis, Zenir Campos. Sinal de menos. In: Teresa revista de Literatura Brasileira. Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo – No.2 (2001) (São Paulo: Ed. 34, 2001, p.154-160).

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Uma crônica a respeito

Língua brasileira
autor: Kledir Ramil
‘Outro dia eu vinha pela rua e encontrei um mandinho, um guri desses que andam sem carpim, de bragueta aberta, soltando pandorga. Eu vinha de bici, descendo a lomba pra ir na lancheria comprar umas bergamotas…’ Se você não é gaúcho, provavelmente não entendeu nada do que eu estava contando.
No Rio Grande do Sul a gente chama tangerina de bergamota e carne moída de guisadoBidê, que a maioria usa no banheiro, é nome que nós demos para a mesinha de cabeceira, que em alguns lugares chamam de criado-mudo. E por aí vai. A privada, nós chamamos de patente. Dizem que começou com a chegada dos primeiros vasos sanitários de louça, vindos da Inglaterra, que traziam impresso ‘Patent’ número tal. E pegou.
Ir aos pés no RS é fazer cocô. Eu acho tri elegante, poético. ‘Com licença, vou aos pés e já volto’. Uma amiga carioca foi passear em Porto Alegre e precisou de um médico. A primeira coisa que ele perguntou foi: ‘Vais aos pés normalmente, minha filha?’ Ela na mesma hora levantou e começou a fazer flexão.
O Brasil tem dessas coisas, é um país maravilhoso, com o português como língua oficial, mas cheio de dialetos diferentes. No Rio de Janeiro é ‘e aí merrmão! CB, sangue bom!’ Até eu entender que merrmão era “meu irmão” levou tempo. Pra conseguir se comunicar, além de arranhar a garganta com o ‘erre’, você precisa aprender a chiar que nem chaleira velha: ‘vai rolá umasch paradasch inschperrtasch.’.
Na cidade de São Paulo eles botam um ‘i’ a mais na frente do ‘n’: ‘ôrra meu! Tô por deintro, mas não tô inteindeindo o que eu tô veindo’. E no interiorr falam um ‘erre’ todo enrolado: ‘a Ferrrnanda marrrcô a porrrteira’. Dá um nó na língua. A vantagem é que a pronúncia deles no inglês é ótima.
Em Mins, quer dizer em Minas, eles engolem letras e falam Belzonte, Nossenhora. Doidemais da conta, sô! Qualquer objeto é chamado de trem. Lembrei daquela história do mineirinho na plataforma da estação. Quando ouviu um apito, falou apontando as malas: ‘Muié, pega os trem que o bicho ta vindo’.
No Nordeste é tudo meu rei, bichinho, ó xente. Pai é painho, mãe é mainha, vó évóinha. E pra você conseguir falar com o acento típico da região, é só cantar a primeira sílaba de qualquer palavra numa nota mais aguda que as seguintes. As frases são sempre em escala descendente, ao contrário do sotaque gaúcho.
Mas o lugar mais interessante de todos é Florianópolis, um paraíso sobre a terra, abençoado por Nossa Senhora do Desterro. Os nativos tradicionais, conhecidos como Manezinhos da Ilha, têm o linguajar mais simpático da nossa língua brasileira. Chamam lagartixa de crocodilinho de parede. Helicóptero é avião de rosca (quedeve ser lido rôschca). Carne moída é boi ralado. Se você quiser um pastel de carne, precisa pedir um envelope de boi ralado. Telefone público, o popular orelhão, é conhecido como poste de prosa e a ficha de telefone é pastilha de prosa. Ovo eles chamam de semente de galinha e motel é lugar de instantinho. Dizem que isso tudo vem da colonização açoriana, inclusive a pronúncia deliciosa de algumas expressões, como ‘si quéisch quéisch, si não quéisch, disch’.
Se você estiver por lá, viajando de carro, e precisar de alguma informação sobre a estrada pra voltar pra casa, deve perguntar pela ‘Briói’, como é conhecida a BR-101.
Em Porto Alegre, uma empresa tentou lançar um serviço de entrega a domicílio de comida chinesa, o Tele China. Só que um dos significados de china no RS é prostituta. Claro que não deu certo. Imagina a confusão, um cara liga às duas da manhã, a fim de uma loira, e recebe como sugestão Frango Xadrez com Rolinho Primavera e Banana Caramelada.
Tudo isso é muito engraçado, mas às vezes dá problema sério. A primeira vez que minha mãe foi ao Rio de Janeiro, entrou numa padaria e pediu: ‘Me dá um cacete!!!. Cacete pra nós é pão francês. O padeiro caiu na risada, chamou-a num canto e tentou contornar a situação. Ela ingenuamente emendou: ‘Mas o senhor não tem pelo menos um cacetinho?
(N. do T. – mandinho é garoto, carpim é meia, bragueta é braguilha, pandorga é pipa, bici é bicicleta, lomba é ladeira, lancheria é lanchonete.)
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