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CoiZas do BraZiU.

 

Gostaria de lembrar a todos os nossos leitores que ao apontar indiscriminadamente o dedo para uma pessoa e falar “você está falando errado”, ou “você está matando o português”, entre outras coisas, está-se considerando que o que é “certo” é o seu modo de falar. Isso reduz o outro, então, a alguém “inferior”, ou mesmo “menos culto” e menos capaz. Porém, acredito que o jornalista Clóvis Rossi tenha se esquecido de que a gramática é a representação gráfica de um objeto de estudos que é oral, pois se em um tribunal falamos com “pompa e requinte”, é porque lá é um espaço que exige certos decoros próprios. Na vida cotidiana falamos fora da gramática, por que é assim que funciona o cérebro humano, desde o nascimento do mundo: em Roma, os reis falavam um latim, os soldados outro e os camponeses um terceiro ainda; na Escócia (e o inglês tem um acordo ortográfico mundial há muito mais tempo que nós), os escoceses de Glasgow falam com uma pronúncia e sintaxe própria, diferente dos escoceses de Edimburgo, Aberdeen e Dundee; João Luandino Vieira, mestre das letras angolanas, escreve com um vocabulário próprio de sua Angola natal, quase totalmente incompreensível para os brasileiros e, mesmo assim, ele é dito como um dos maiores escritores da África lusófona. Eu sei isso porque estudei. Eu li um livro, provavelmente desconhecido por muitos formadores de opinião – e coloco aqui o Clóvis Rossi – chamado Preconceito linguístico: o que é, como se faz do professor da UnB (Universidade de Brasília) Marcos Bagno, e tenho ainda outro dele chamado Não é errado falar assim. Também posso sugerir que o senhor Rossi leia Ensino de gramática: Liberdade ou opressão? do imortal Evanildo Bechara, ou mesmo as gramáticas de Mério Perini que provam que a atual gramática do português para a fala brasileira é, em sua estrutura atual, insuficiente. Outro ponto é que uma língua não morre por ter sido morta por seus falantes, mas por que ela foi cedendo lugar a uma língua de fora. O que devemos fazer é incentivar a leitura de livros nacionais e ensinar que existem dois tipos de comunicação: aquela que deve ser nos moldes de gramática tradicional, a língua escrita, e aquela que pode ser usada mais informalmente, a língua falada. Assim, nossos jovens entendem que aprender a língua portuguesa é importante para fazer burocracias, sem, porém, terem de se despir da sua versão informal.Por fim, é preciso constatar que matar uma vida é uma perda irreparável, modificar a língua não. A língua muda por ação de seus falantes. Matar um ser humano é um ato abominável, e comparar a perda de uma vida às transições naturais de um idioma é um gesto lamentável e infame. E quanto aos nossos professores, o jornalista Rossi certamente não conhece a realidade das escolas públicas nacionais, pois se conhecesse saberia que na maioria das vezes as condições de trabalho do professor são lamentáveis, os alunos não têm perspectivas de melhoria de vida ou de estudos, e assim, o professor da escola pública é um herói, um Atlas que tem em si o globo que sustenta o que resta de civilidade em nosso país. Quando nosso professor-Atlas não aguentar mais, este globo cairá e se destruirá em milhões de pedaços. Então, sugiro que o jornalista tenha mais respeito com a classe.

Que os articulistas da Folha de S. Paulo ponderem mais suas palavras, pois da forma como estas são colocadas, algum leitor menos avisado poderia pensar que este jornal está se tornando apelativo.

Sem demais, As Hárpias.

PS: Leiam a maravilhosa opinião de Hélio Schwartsman sobre os ataques da imprensa ao livro linguisticamente correto, AQUI.

 
Lucas Grosso – blog http://asharpias.blogspot.com/
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