Uma crônica a respeito

Língua brasileira
autor: Kledir Ramil
‘Outro dia eu vinha pela rua e encontrei um mandinho, um guri desses que andam sem carpim, de bragueta aberta, soltando pandorga. Eu vinha de bici, descendo a lomba pra ir na lancheria comprar umas bergamotas…’ Se você não é gaúcho, provavelmente não entendeu nada do que eu estava contando.
No Rio Grande do Sul a gente chama tangerina de bergamota e carne moída de guisadoBidê, que a maioria usa no banheiro, é nome que nós demos para a mesinha de cabeceira, que em alguns lugares chamam de criado-mudo. E por aí vai. A privada, nós chamamos de patente. Dizem que começou com a chegada dos primeiros vasos sanitários de louça, vindos da Inglaterra, que traziam impresso ‘Patent’ número tal. E pegou.
Ir aos pés no RS é fazer cocô. Eu acho tri elegante, poético. ‘Com licença, vou aos pés e já volto’. Uma amiga carioca foi passear em Porto Alegre e precisou de um médico. A primeira coisa que ele perguntou foi: ‘Vais aos pés normalmente, minha filha?’ Ela na mesma hora levantou e começou a fazer flexão.
O Brasil tem dessas coisas, é um país maravilhoso, com o português como língua oficial, mas cheio de dialetos diferentes. No Rio de Janeiro é ‘e aí merrmão! CB, sangue bom!’ Até eu entender que merrmão era “meu irmão” levou tempo. Pra conseguir se comunicar, além de arranhar a garganta com o ‘erre’, você precisa aprender a chiar que nem chaleira velha: ‘vai rolá umasch paradasch inschperrtasch.’.
Na cidade de São Paulo eles botam um ‘i’ a mais na frente do ‘n’: ‘ôrra meu! Tô por deintro, mas não tô inteindeindo o que eu tô veindo’. E no interiorr falam um ‘erre’ todo enrolado: ‘a Ferrrnanda marrrcô a porrrteira’. Dá um nó na língua. A vantagem é que a pronúncia deles no inglês é ótima.
Em Mins, quer dizer em Minas, eles engolem letras e falam Belzonte, Nossenhora. Doidemais da conta, sô! Qualquer objeto é chamado de trem. Lembrei daquela história do mineirinho na plataforma da estação. Quando ouviu um apito, falou apontando as malas: ‘Muié, pega os trem que o bicho ta vindo’.
No Nordeste é tudo meu rei, bichinho, ó xente. Pai é painho, mãe é mainha, vó évóinha. E pra você conseguir falar com o acento típico da região, é só cantar a primeira sílaba de qualquer palavra numa nota mais aguda que as seguintes. As frases são sempre em escala descendente, ao contrário do sotaque gaúcho.
Mas o lugar mais interessante de todos é Florianópolis, um paraíso sobre a terra, abençoado por Nossa Senhora do Desterro. Os nativos tradicionais, conhecidos como Manezinhos da Ilha, têm o linguajar mais simpático da nossa língua brasileira. Chamam lagartixa de crocodilinho de parede. Helicóptero é avião de rosca (quedeve ser lido rôschca). Carne moída é boi ralado. Se você quiser um pastel de carne, precisa pedir um envelope de boi ralado. Telefone público, o popular orelhão, é conhecido como poste de prosa e a ficha de telefone é pastilha de prosa. Ovo eles chamam de semente de galinha e motel é lugar de instantinho. Dizem que isso tudo vem da colonização açoriana, inclusive a pronúncia deliciosa de algumas expressões, como ‘si quéisch quéisch, si não quéisch, disch’.
Se você estiver por lá, viajando de carro, e precisar de alguma informação sobre a estrada pra voltar pra casa, deve perguntar pela ‘Briói’, como é conhecida a BR-101.
Em Porto Alegre, uma empresa tentou lançar um serviço de entrega a domicílio de comida chinesa, o Tele China. Só que um dos significados de china no RS é prostituta. Claro que não deu certo. Imagina a confusão, um cara liga às duas da manhã, a fim de uma loira, e recebe como sugestão Frango Xadrez com Rolinho Primavera e Banana Caramelada.
Tudo isso é muito engraçado, mas às vezes dá problema sério. A primeira vez que minha mãe foi ao Rio de Janeiro, entrou numa padaria e pediu: ‘Me dá um cacete!!!. Cacete pra nós é pão francês. O padeiro caiu na risada, chamou-a num canto e tentou contornar a situação. Ela ingenuamente emendou: ‘Mas o senhor não tem pelo menos um cacetinho?
(N. do T. – mandinho é garoto, carpim é meia, bragueta é braguilha, pandorga é pipa, bici é bicicleta, lomba é ladeira, lancheria é lanchonete.)
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Viva a Jô!

Post sugerido por Laerte Centini Neto (laerteneto@hotmail.com).

Veja uma construção artística a partir do tema da discriminação das pessoas que têm um modo de falar diferente da norma “culta” (aliás, esse termo precisa urgentemente ser revisto…). O Teatro Mágico tem essa linda canção que revela as variações linguísticas existentes no Brasil e o dinamismo que nossa língua ganha com a criação de neologismos. 

Josilene Raimunda, a segunda mãe de Anitelli (vocalista), foi a inspiração. Ela é a senhora que trabalha há anos na casa da família do artista. 

Se você quiser ver a letra:

Agora assista ao vivo! Sensacional!

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MEC não terá de recolher livro polêmico

Uma liminar expedida ontem afirma que o Ministério da Educação não precisará recolher os exemplares do livro didático Por Uma Vida Melhor, distribuído a escolas públicas do País.

O pedido de recolhimento ocorreu em razão da polêmica causada pelo capítulo em que frases como “os menino pega o peixe” apareciam como tendo uso aceitável na norma popular.

Em sua decisão, o juiz Wilson Zauhy Filho, da 13ª Vara Federal Cível de São Paulo, afirma que concedeu a liminar porque foram apresentados pareceres técnicos de especialistas da educação discordando que o livro seja inadequado ao ensino de jovens, o que demonstra que a discussão é polêmica. “Não é possível afirmar de plano que a obra é inservível ao ensino”, diz.

Fonte: O Estado de S.Paulo de 23 de setembro de 2011

Expansão da Sociolinguística (transcrição)

O texto abaixo vai para aqueles que gostariam de saber um pouco mais sobre a Sociolinguística, suas buscas e seus locais de produção atualmente no Brasil.

“Além de contribuir para a descrição e explicação de fenômenos linguísticos, a sociolinguística também fornece subsídios para a área do ensino de línguas. Os sociolinguistas postulam que os dialetos das classes desfavorecidas não são inferiores, insuficientes ou corrompidos. Afirmam que esses dialetos são estruturados com base em regras gramaticais, muitas das quais diferentes das regras do dialeto padrão. Dessa forma, a sociolinguística cria nos (futuros) professores uma visão menos preconceituosa e incentiva-os a valorizar todos os dialetos e a mostrar à criança que o dialeto culto é considerado melhor socialmente, mas que estrutural e funcionalmente não é nem melhor nem pior que o dialeto da comunidade do aluno.

A sociolinguística, com suas pesquisas baseadas na produção real dos indivíduos, dá-nos informações detalhadas acerca da variante produzida pelas pessoas mais escolarizadas, sobre as variantes que deixaram de ser estigmatizadas, e das mudanças já implementadas na fala, mas que ainda não são aceitas nas gramáticas normativas. Com isso, a área da educação se enriquece com as informações que podem ser usadas também no ensino da língua culta, que passa a ser baseada em dados reais.

No que se refere ao ensino de línguas estrangeiras, as pesquisas acerca da variação podem contribuir para fornecer material para que as aulas sejam baseadas na forma como realmente os nativos falam, na preparação de material com diversos tipos de registros com as suas variações linguísticas típicas, na escolha do dialeto a ser ensinado, dentre outros elementos.

Os processos teórico-metodológicos da sociolinguística são trabalhados em diversos centros de pesquisa no mundo. No brasil, as pesquisas nessa linha começaram a ser desenvolvidas na década de 1970, através da atuação de alguns grupos de pesquisadores, a saber: o grupo do projeto Mobral Central, o grupo do projeto da Norma Urbana Oral Culta do Rio de Janeiro (Nurc) e o do projeto Censo da Variação Linguística no Estado do Rio de Janeiro (Censo), tendo como coordenadores os professores Miriam Lemle, Celso Cunha e Anthony Naro, respectivamente. A partir daquela década, muitos trabalhos foram realizados nessa linha.

Hoje, em várias universidades brasileiras, há grupos que seguem os pressupostos teórico-metodológicos da sociolinguística, como o Programa de Estudos sobre o Uso da Línha (Peul), continuidade do Projeto Censo, o próprio Nurc – na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); o projeto de Variação Linguística da Região Sul do Brasil (Varsul) – na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Diversas teses foram defendidas com o objetivo de descrever as formas variantes do português do Brasil e de explicar os fatores  linguísticos e extralinguísticos que favorecem/desfavorecem as variantes linguísticas.

Muitos projetos buscam novas alternativas para explicar a variação e a mudança, a partir de outras áreas da linguística como o funcionalismo. Por outro lado, há grupos funcionalistas que aproveitam o aparato teórico-metodológico da sociolinguística para preparar o corpus e para coletar e analisar os dados, como é o caso do projeto Discurso & Gramática, iniciado pelo professor Sebastião Votre na UFRJ e que hoje conta com representantes em diversas universidade do Brasil”.

(Maria Maura Cezario & Sebastião Votre. Sociolinguística. In: Mário Eduardo Martelotta (org.) Manual de Linguística. São Paulo: Contexto,2008).

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Variação linguística digital

Facebook: Gaúchos mudam nome 

 

do botão ‘Curtir’ para ‘Afudê’

 

  • 23 de julho de 2011|

Por Rodrigo Martins

Nada menos do que 23 mil pessoas já modificaram seus Facebooks para exaltar o “gauchismo” em apenas um dia. O Bairrista, famoso por postar notícias engrandecendo o Rio Grande do Sul, lançou nesta sexta-feira uma brincadeira na web: uma extensão que transforma os botões “Curtir” e “Cutucar” em “Afudê” e “Inticar”, expressões usadas regionalmente.

“Como deveria ser desde o início”, brinca Jr. Maicá, o responsável pelo site, em entrevista ao Terra. “O objetivo é permitir que os gaúchos tenham um Facebook do qual eles se orgulhem. Chega de estrangeirismos, queremos um Facebook Gaudério, um Facebook Bagual, um Facebook Bairrista.”

Para baixar a extensão, que funciona em Chrome e Firefox, é só clicar aqui.

Fonte: http://blogs.estadao.com.br/rodrigo-martins/2011/07/23/facebook-gauchos-mudam-nome-do-botao-curtir-para-afude/

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Manuel Bandeira

 

Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
- Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão…)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União…
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade…
…onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora…
…onde se ia pescar escondido
Capiberibe
- Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
- Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo…
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife…
Rua da União…
A casa de meu avô…
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife…
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.

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Oswald de Andrade

Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

 

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Desinformação e desrespeito na mídia brasileira

Desinformação e desrespeito na mídia brasileira

Por alguma razão escondida dentro de cada um de nós que escrevemos este texto tivemos como escolha profissional o ensino de língua (materna ou estrangeira). Por algum motivo desconhecido, resolvemos abraçar uma das profissões mais mal pagas do nosso país. Não quisemos nos tornar médicos, advogados ou jornalistas. Quisemos virar professores. E, para fazê-lo, tivemos que estudar.

Estudar, para alguém que quer ensinar, tem uma dimensão profunda. Foi estudando que abandonamos muitas visões simplistas do mundo e muitos dos nossos preconceitos.

Durante anos debatemos a condição da educação no Brasil; cotidianamente nos aprofundamos na realidade do país e em uma das expressões culturais mais íntimas de seus habitantes: a sua língua. Em várias dessas discussões utilizamos reportagens, notícias, ou fatos trazidos pelos jornais.

Crescemos ouvindo que jovem não lê jornal e que a cada dia o brasileiro lê menos. A julgar por nosso cotidiano, isso não é verdade. Tanto é que muitos de nós, já indignados com o tratamento dado pelo Jornal Nacional à questão do material Por uma vida melhor, perdemos o domingo ao, pela manhã, lermos as palavras de um dos mais respeitados jornalistas do país criticando, na Folha de S. Paulo, a valorização dada pelo material ao ensino das diferentes possibilidades do falar brasileiro. E ficamos ainda mais indignados durante a semana com tantas reportagens e artigos de opinião cheios de ideias equivocadas, ofensivas, violentas e irresponsáveis. Lemos textos assim também no Estado de São Paulo e nas revistas semanais Veja e IstoÉ.

Vimos o Jornal Nacional colocar uma das autoras do material na posição humilhante de ter que se justificar por ter conseguido fazer uma transposição didática de um assunto já debatido há tempos pelos grandes nomes da Linguística do país – nossos mestres, aliás. O jornalista Clovis Rossi afirmou que a língua que ele julga correta é uma “evolução para que as pessoas pudessem se comunicar de uma maneira que umas entendam perfeitamente as outras” e que os professores têm o baixo salário justificado por “preguiça de ensinar”. Uma semana depois, vimos Amauri Segalla e Bruna Cavalcanti narrarem um drama em que um aluno teria aprendido uma construção errada de sua língua, e afirmarem que o material “vai condenar esses jovens a uma escuridão cultural sem precedentes“. Também esses dois últimos jornalistas tentam negar a voz contrária aos seus julgamentos, dizendo que pouquíssimos foram os que se manifestaram, e que as ideias expressas no material podem ter sucesso somente entre alguns professores “mais moderninhos”. Já no Estado de São Paulo vimos um economista fazendo represálias brutas a esse material didático. Acreditamos que o senhor Sardenberg entenda muito sobre jornalismo e economia, porém fica nítida a fragilidade de suas concepções sobre ensino da língua. A mesma desinformação e irresponsabilidade revelou o cineasta Arnaldo Jabor, em seu violento comentário na rádio CBN.

Ficamos todos perplexos pela falta de informação desses jornalistas, pela inversão de realidade a que procederam, e, sobretudo, pelo preconceito que despejaram sem pudor sobre seus espectadores, ouvintes e leitores, alimentando uma visão reduzida ao senso comum equivocado quanto ao ensino da língua. A versão trazida pelos jornais sobre a defesa do “erro” em livros didáticos, e mais especificamente no livro Por uma vida melhor, é uma ofensa a todo trabalho desenvolvido pelos linguistas e educadores de nosso país no que diz respeito ao ensino de Língua Portuguesa.

A pergunta inquietante que tivemos foi: será que esses jornalistas ao menos se deram o trabalho de ler ou meramente consultar o referido livro didático antes de tornar públicas tão caluniosas opiniões? Sabemos que não. Pois, se o tivessem feito, veriam que tal livro de forma alguma defende o ato de falar “errado”, mas sim busca desmistificar a noção de erro, substituindo-a pela de adequação/inadequação. Isso porque, a Linguística, bem como qualquer outra ciência humana, não pode admitir a superioridade de uma expressão cultural sobre outra. Ao dizer que a população com baixo grau de escolaridade fala “errado”, o que está-se dizendo é que a expressão cultural da maior parte da população brasileira é errada, ou inferior à das classes dominantes. Isso não pode ser concebido, nem publicado deliberadamente como foi nos meios de comunicação. É esse ensinamento básico que o material propõe, didaticamente, aos alunos que participam da Educação de Jovens e Adultos. Mais apropriado, impossível. Paulo Freire ficaria orgulhoso. Os jornalistas, porém, condenam.

Sabemos que os veículos de comunicação possuem uma influência poderosa sobre a visão de mundo das pessoas, atuam como formadores de opinião, por isso consideramos um retrocesso estigmatizar certos usos da língua e, com isso, o trabalho de profissionais que, todos os dias, estão em sala de aula tentando ir além do que a mera repetição dos exercícios gramaticais mecânicos, chamando atenção para o caráter multifacetado e plural do português brasileiro e sua relação intrínseca com os mais diversos contextos sociais.

A preocupação dos senhores jornalistas, porém, ainda é comum. Na base de suas críticas aparecem, sobretudo, o medo da escola não cumprir com seu papel de ensinar a norma culta aos falantes. Entretanto, se tivessem lido o referido material, esse medo teria facilmente se esvaído. Como todo linguista contemporâneo, os autores deixam claro, na página 12, que “Como a linguagem possibilita acesso a muitas situações sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes, para que eles tenham mais uma variedade à sua disposição, a fim de empregá-la quando for necessário“. Dessa forma, sem deixar de valorizar a norma escrita culta – necessária para atuar nas esferas profissional e cultural, e logo, determinante para a ascensão econômica e social de seus usuários, embora não suficiente – o material consegue promover o debate sobre a diversidade linguística brasileira. Esse feito, do ponto de vista de todos que produzimos e utilizamos materiais didáticos, é fundamental.

Sobre os conteúdos errôneos que foram publicados pelos jornais e revistas, foi possível ver que, após uma semana, as respostas dadas pelos educadores, estudiosos da linguagem e, sobretudo, da variação linguística, já foram bastante elucidativas para informar esses profissionais do jornalismo. Infelizmente alguns jornalistas não os leram. Mas ainda dá tempo de aprender com esses textos. Leiam as respostas de linguistas tais como Luis Carlos Cagliari, Marcos Bagno, Carlos Alberto Faraco, Sírio Possenti, e de educadores tais como Maria Alice Setubal e Maurício Ernica, entre outros, publicadas em diversas fontes, como elucidativas e representativas do que temos a dizer. Aliás, muito nos orgulha a paciência desses autores – foram verdadeiras aulas para alunos que parecem ter que começar do zero. Admirável foram essas respostas calmas, respeitosas e informativas, verdadeiras lições de Linguística, de Educação – e de atitude cidadã, diga-se de passagem – para “formadores de opinião” que, sem o domínio do assunto, resolveram palpitar, julgar e até incriminar práticas e as ideias solidamente construídas em pesquisas científicas sobre a língua ao longo de toda a vida acadêmica de vários intelectuais brasileiros respeitados, ideias essas que começam, aos poucos, a chegar à realidade das escolas.

Ao final de anos de luta para podermos virar professores, ao invés de vermos nossos pensadores, acadêmicos, e professores valorizados, vimos a humilhação violenta que eles sofreram. Vimos, com isso, a humilhação que a academia e que os estudos sérios e profundos podem sofrer pela mídia desavisada (ou maldosa). O poder da mídia foi assustador. Para os alunos mais dispersos, algumas concepções que levaram anos para serem construídas foram quebradas em instantes. Felizmente, esses são poucos. Para grande parte de nossos colegas estudantes de Letras o que aconteceu foi um descontentamento geral e uma descrença coletiva nos meios de comunicação.

A descrença na profissão de professor, que era a mais provável de ocorrer após tamanha violência e irresponsabilidade da mídia, essa não aconteceu – somente por conta daquele nosso motivo interno ao qual nos referimos antes. Nossa crença de que a educação é a solução de muitos problemas – como esse, por exemplo – e que é uma das profissões mais satisfatórias do mundo continua firme. Sabemos que vamos receber baixos salários, que nossa rotina será mais complicada do que a de muitos outros profissionais, e de todas as outras dificuldades que todos sabem que um professor enfrenta. O que não sabíamos é que não tínhamos o apoio da mídia, e que, pior que isso, ela se voltaria contra nós, dizendo que o baixo salário está justificado, e que não podemos reclamar porque não cumprimos nosso dever direito.

Gostaríamos de deixar claro que não, ensinar gramática tradicional não é difícil. Não temos preguiça disso. Facilmente podemos ler a respeito da questão da colocação pronominal, passar na lousa como os pronomes devem ser usados e dizer para o aluno que está errado dizer “me dá uma borracha”. Isso é muito simples de fazer. Tão simples que os senhores jornalistas, que não são professores, já corrigiram o material Por uma vida melhor sobre a questão do plural dos substantivos. Não precisa ser professor para fazer isso. Dizer o que está errado, aliás, é o que muitos fazem de melhor.

Difícil, sabemos, é ter professores formados para conseguir promover, simultaneamente, o debate e o ensino do uso dos diversos recursos linguísticos e expressivos do português brasileiro que sejam adequados às diferentes situações de comunicação e próprios dos inúmeros gêneros do discurso orais e escritos que utilizamos. Esse professor deve ter muito conhecimento sobre a linguagem e sobre a língua, nas suas dimensões linguísticas, textuais e discursivas, sobre o povo que a usa, sobre as diferentes regiões do nosso país, e sobre as relações intrínsecas entre linguagem e cultura.

Esse professor deve ter a cabeça aberta o suficiente para saber que nenhuma forma de usar a língua é “superior” a outra, mas que há situações que exigem uma aproximação maior da norma culta e outras em que isso não é necessário; que o “correto” não é falar apenas como paulistas e cariocas, usando o globês; que nenhum aluno pode sair da escola achando que fala “melhor” que outro, mas sim ciente da necessidade de escolher a forma mais adequada de usar a língua conforme exige a situação e, é claro, com o domínio da norma culta para as ocasiões em que ela é requerida. Esse professor tem que ter noções sobre identidade e alteridade, tem que valorizar o outro, a diferença, e respeitar o que conhece e o que não conhece.

Também esse professor tem que ter muito orgulho de ser brasileiro: é ele que vai dizer ao garoto, ao ensinar o uso adequado da língua nas situações formais e públicas de comunicação, que não é porque a mãe desse garoto não usa esse tipo de variedade lingüística, a norma culta, não conjuga os verbos, nem usa o plural de acordo com uma gramática pautada no português europeu, que ela é ignorante ou não sabe pensar. Ele vai dizer ao garoto que ele não precisa se envergonhar de sua mãe só porque aprendeu outras formas de usar o português na escola, e ela não. Ele vai ensinar o garoto a valorizar os falares regionais, e ser orgulhoso de sua família, de sua cultura, de sua região de origem, de seu país e das diferenças que existem dentro dele e, ao mesmo tempo, a ampliar, pelo domínio da norma culta, as suas possibilidades de participação na sociedade e na cultura letrada. O Brasil precisa justamente desse professor que esses jornalistas tanto incriminaram.

Formar um professor com esse potencial é o que fazem muitos dos intelectuais que foram ofendidos. Para eles, pedimos que esses jornalistas se desculpem. E lhes agradeçam. E, sobretudo, antes de os julgarem novamente, leiam suas publicações. Ironicamente, pedimos para a mídia se informar.

Nós somos a primeira turma a entrar no mercado de trabalho após esse triste ocorrido da imprensa. Somos muito conscientes da luta que temos pela frente e das possibilidades de mudança que nosso trabalho promove. Para isso, estudamos e trabalhamos duro durante anos. A nós, pedimos também que se desculpem. E esperamos que um dia possam nos agradecer.

Reafirmamos a necessidade de os veículos de comunicação respeitarem os nossos objetos de estudo e trabalho — a linguagem e a língua portuguesa usada no Brasil —, pois muitos estudantes e profissionais de outras áreas podem não perceber tamanha desinformação e manipulação irresponsável de informação, e podem vir a reproduzir tais concepções simplistas e equivocadas sobre a realidade da língua em uso, fomentando com isso preconceitos difíceis de serem extintos.

Sabemos que sozinhos os professores não mudam o mundo. Como disse a Professora Amanda Gurgel, em audiência pública no Rio Grande do Norte, não podemos salvar o país apenas com um giz e uma lousa. Precisamos de ajuda. Uma das maiores ajudas com as quais contamos é a dos jornalistas. Pedimos que procurem conhecer as teorias atuais da Educação, do ensino de língua portuguesa e da prática que vem sendo proposta cotidianamente no Brasil. Pedimos que leiam muito, informem-se. Visitem escolas públicas e particulares antes de se proporem a emitir opinião sobre o que deve ser feito lá. Promovam acima de tudo o debate de ideias e não procedam à condenação sumária de autores e obras que mal leram. Critiquem as assessorias internacionais que são contratadas reiteradamente. Incentivem o profissional da educação. E nunca mais tratem os professores como trataram dessa vez. O poder de vocês é muito grande – a responsabilidade para usá-lo deve ser também.

Alecsandro Diniz Garcia, Ana Amália Alves da Silva, Ana Lúcia Ferreira Alves, Anderson Mizael, Jeferson Cipriano de Araújo, Laerte Centini Neto, Larissa Arrais, Larissa C. Martins, Laura Baggio, Lívia Oyagi, Lucas Grosso, Maria Laura Gándara Junqueira Parreira, Maria Vitória Paula Munhoz, Nathalia Melati, Nayara Moreira Santos, Sabrina Alvarenga de Souza e Yuki Agari Jorgensen Ramosformandos 2011 em Letras da PUC-SP, futuros professores de Língua Portuguesa e Língua Inglesa.

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Jornalistas com deficit de letramento

Copiamos na íntegra o post de 24/05 do blog de Luis Nassif. Está genial.

Por Weden

Diz o dito popular que médicos enterram seus erros. E os jornalistas os repercutem.

A falta de atenção e capacidade de compreensão do que diz o  livro didático Por uma Vida Melhor, da editora Global é indicativo de deficit de letramento entre jornalistas. Junte-se a problemas de leitura, interesses mercadológicos, ignorância científica, leviandade intelectual e oportunismo político.

São inúmeros os sintomas do deficit de letramento. Entre eles, dificuldade de relacionar textos (problemas com a intertextualidade), desatenção ao cotexto em que aparecem as sentenças  e incapacidade de  associar o texto ao contexto de enunciação – para não falar nas posições discursivas, mas isso é outra história.

O problema não é só encontrado no ensino básico.  É comum que o deficit de letramento seja detectado também em outros níveis de escolaridade, mesmo entre aqueles que, em suas profissões, fazem largo uso da leitura e da escrita.

Linguistas já chamaram a atenção para o fato de que se estes jornalistas fossem submetidos ao PISA seriam reprovados.

Aqui a lista de jornalistas e intelectuais que precisam aprimorar sua leitura.

No caso deles, talvez não seja difícil.

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Clóvis Rossi (Folha de SP): atribuiu aos autores do livro “crimes linguisticos” e “argumentos delinquenciais”. Fundamentou seus ataques a uma pequena passagem do livro. O capítulo não era tão grande para ele se abster da leitura. Uma das marcas do deficit de letramento é a incapacidade de fazer correlações cotextuais. Interpretou “demonstração linguistica” com “pregação linguística”, o que não cabe a este ramo do saber.

Flávia Salme (IG): levou a escolas sua leitura equivocada do livro. Induziu alunos a se pronunciarem contra. No seu texto, confunde modalidade e registro com normas.

William Waack (Rede Globo): iniciou o programa Painel, da GloboNews, perguntando se é “certo ensinar errado”. Tímido com a explicação de Maria Alice Setubal, professora convidada, pergunta :”Embarcamos numa furada?”. Ela responde: “sim”. Nem Afonso Romano o apoiou.

Mônica Waldvogel (Globo): a reportagem de abertura do programa Entre Aspas, por meio de um recorte descontextualizado do livro,  induz os entrevistados a condenarem  a obra, os autores e o MEC. Cala-se diante das intervenções de Cristóvão Tezza e Marcelino Freire**.

Jornalista do jornal O Globo (vários): as reportagens sobre o livro didático foram assinadas por vários jornalistas. Todos insistiram na tese – não confirmada – de que o livro contém “erros grosseiros de português”.

Augusto Nunes (Veja): perseguiu a professora Heloísa Ramos, durante dias. A professora é consultora da revista Nova Escola, da própria Abril, a que serve o jornalista.

Reinaldo Azevedo (Veja): a partir de trechos soltos, confundiu demonstração linguistica com pregação política. Partidarizou o que é consenso no campo da linguistica internacional.

Merval Pereira (Globo): fez afirmações fora do escopo da obra: “o Ministério da Educação está estimulando os alunos brasileiros a cultivarem seus erros”. Não há passagem clara neste sentido no livro.

Carlos Alberto Sardenberg (Globo): chegou a afirmar que o livro defende o modo de falar do ex-presidente Lula. Não leu o livro.

A mea-culpa da Folha de São Paulo, no editorial “Os livro”, não foi acompanhada do necessário pedido de desculpas aos autores da obra. A seu favor, deve-se frisar que o jornal publicou dois artigos que mostram que nem todos deixaram de se ater à obra para comentá-la.  Ressalte-se aqui a honestidade intelectual de Hélio Schwartsman e de Thais Nicoleti de Camargo.

Quem mais criticou sem ler?

Marcos Vilaça (Presidente da Academia Brasileira de Letras). Caso gravíssimo. O presidente da instiuição responsável pela memória das letras no país sequer teve o cuidado de consultar a obra. Acreditou no que foi levado pelos jornalistas. Desacreditou a instituição.

Ruy Castro (Escritor). Ele não leu o livro e se indignou com o que não havia sido escrito na obra. O escritor vive da leitura de livros. Mas ele mesmo não deu o exemplo.

Evanildo Bechara (Gramático). Cometeu o erro mais grave de sua carreira acadêmica. Criticou autores sem ter lido o livro. Um gramático não pode desconhecer a necessidade de ler para emitir juízos.

Edgar Flexa Ribeiro (Educador). Ele também não leu o livro e emitiu opinião a partir de trechos descontextualizados. Envolvido com educação, deu um passo em falso e será cobrado por isso.

Cristóvão Buarque (Senador). Sem ler o livro, diz que a obra pode prejudicar alunos. Este é  um caso bastante sintomático. Como sua bandeira é a Educação, poderia ter sido mais cuidadoso ou pelo menos ter lido o capítulo em que aparecem as citações da imprensa. Sem fundamentação na realidade do que estava escrito no livro, declarou: “Existe um risco de se criar duas formas de falar o português” (existem várias formas de falar português, até porque toda língua é constituída por dialetos, como fica claro nas diferenças entre o Português Europeu e o Português Brasileiro); “os estudantes da rede pública, ao adotar erros de concordância verbal como regra, não terão a menor chance de passar em um concurso” (o livro em nenhum momento diz isso); “Tem que se ter em mente uma questão fundamental: sotaque e regionalismos são uma coisa, a língua portuguesa é outra” (esta diferença é absurda do ponto de vista das ciências linguísticas”).

Todos os personagens acima devem desculpas à professora Heloísa Ramos e à ONG Ação Educativa. Eles se deixaram levar pela cobertura da imprensa. Pode-se desculpá-los por isso, mas é bom que reflitam.

Considero que estamos diante de um novo caso Escola Base, e todos que não se retratarem terão ajudado a constituir um novo crime de imprensa.

A professora Heloísa Cerri Ramos foi atacada pelos blogs da Veja, que tentaram ridicularizá-la. Já a Ação Educativa, com 15 anos de existência, e inúmeros projetos de pesquisa no campo da educação*, além de ações como pontos de leitura, também foi caluniada sem direito á resposta.

Todos estes jornalistas e intelectuais citados apresentaram problemas graves de letramento. Recomenda-se que repensem o que disseram e tenham a humildade de consultar o capítulo, antes de emitir novas opiniões.

Além disso, um pedido de desculpas não faz mal a ninguém.

A educação brasileira agradece.

______

* A ONG é responsável, junto com o Instituto Paulo Montenegro, pelo Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional, pesquisa de acompanhamento permanente.

Diante dos problemas com os jornalistas, as estatísticas devem ter piorado.

Fonte: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/jornalistas-com-deficit-de-letramento

** Redigimos o sobrenome Freire no lugar que constava Freitas.

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CoiZas do BraZiU.

 

Gostaria de lembrar a todos os nossos leitores que ao apontar indiscriminadamente o dedo para uma pessoa e falar “você está falando errado”, ou ”você está matando o português”, entre outras coisas, está-se considerando que o que é “certo” é o seu modo de falar. Isso reduz o outro, então, a alguém “inferior”, ou mesmo “menos culto” e menos capaz. Porém, acredito que o jornalista Clóvis Rossi tenha se esquecido de que a gramática é a representação gráfica de um objeto de estudos que é oral, pois se em um tribunal falamos com “pompa e requinte”, é porque lá é um espaço que exige certos decoros próprios. Na vida cotidiana falamos fora da gramática, por que é assim que funciona o cérebro humano, desde o nascimento do mundo: em Roma, os reis falavam um latim, os soldados outro e os camponeses um terceiro ainda; na Escócia (e o inglês tem um acordo ortográfico mundial há muito mais tempo que nós), os escoceses de Glasgow falam com uma pronúncia e sintaxe própria, diferente dos escoceses de Edimburgo, Aberdeen e Dundee; João Luandino Vieira, mestre das letras angolanas, escreve com um vocabulário próprio de sua Angola natal, quase totalmente incompreensível para os brasileiros e, mesmo assim, ele é dito como um dos maiores escritores da África lusófona. Eu sei isso porque estudei. Eu li um livro, provavelmente desconhecido por muitos formadores de opinião – e coloco aqui o Clóvis Rossi – chamado Preconceito linguístico: o que é, como se faz do professor da UnB (Universidade de Brasília) Marcos Bagno, e tenho ainda outro dele chamado Não é errado falar assim. Também posso sugerir que o senhor Rossi leia Ensino de gramática: Liberdade ou opressão? do imortal Evanildo Bechara, ou mesmo as gramáticas de Mério Perini que provam que a atual gramática do português para a fala brasileira é, em sua estrutura atual, insuficiente. Outro ponto é que uma língua não morre por ter sido morta por seus falantes, mas por que ela foi cedendo lugar a uma língua de fora. O que devemos fazer é incentivar a leitura de livros nacionais e ensinar que existem dois tipos de comunicação: aquela que deve ser nos moldes de gramática tradicional, a língua escrita, e aquela que pode ser usada mais informalmente, a língua falada. Assim, nossos jovens entendem que aprender a língua portuguesa é importante para fazer burocracias, sem, porém, terem de se despir da sua versão informal.Por fim, é preciso constatar que matar uma vida é uma perda irreparável, modificar a língua não. A língua muda por ação de seus falantes. Matar um ser humano é um ato abominável, e comparar a perda de uma vida às transições naturais de um idioma é um gesto lamentável e infame. E quanto aos nossos professores, o jornalista Rossi certamente não conhece a realidade das escolas públicas nacionais, pois se conhecesse saberia que na maioria das vezes as condições de trabalho do professor são lamentáveis, os alunos não têm perspectivas de melhoria de vida ou de estudos, e assim, o professor da escola pública é um herói, um Atlas que tem em si o globo que sustenta o que resta de civilidade em nosso país. Quando nosso professor-Atlas não aguentar mais, este globo cairá e se destruirá em milhões de pedaços. Então, sugiro que o jornalista tenha mais respeito com a classe.

Que os articulistas da Folha de S. Paulo ponderem mais suas palavras, pois da forma como estas são colocadas, algum leitor menos avisado poderia pensar que este jornal está se tornando apelativo.

Sem demais, As Hárpias.

PS: Leiam a maravilhosa opinião de Hélio Schwartsman sobre os ataques da imprensa ao livro linguisticamente correto, AQUI.

 
Lucas Grosso – blog http://asharpias.blogspot.com/
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